Sururu: o sabor que conta a história de Maceió

Maria Silva

Sururu: o sabor que conta a história de Maceió

Antes de chegar ao prato, o sururu chega à água!


Na Lagoa Mundaú, onde o mar e o rio se encontram em uma calma esverdeada, o dia começa cedo. Os barcos saem ainda no escuro, riscando uma superfície que parece mais espelho do que lagoa. É ali, nesse encontro de águas salgadas e doces, o ambiente salobro que poucos lugares no Brasil têm na medida certa, que vive o pequeno molusco de concha escura que se tornou o símbolo gastronômico de Maceió. Conhecer Alagoas pela mesa começa, quase sempre, por entender essa paisagem.


A lagoa que alimenta a cidade

A Lagoa Mundaú não é cenário de fundo: é uma forma de vida. Ao longo das suas margens, gerações inteiras aprenderam a ler o vento, a maré e o ritmo da água como quem lê um calendário. A pesca artesanal e a coleta de mariscos sustentam comunidades inteiras, e o saber se transmite de mãe para filha, de avô para neto, sem manual, apenas pela presença diária diante da lagoa.


No centro dessa história estão as marisqueiras. São elas que entram na lagoa, muitas vezes com a água pela cintura, para colher o sururu do fundo lamacento. Depois vem o trabalho silencioso e paciente de tirar o molusco da casca, marisco por marisco, em quintais e calçadas, em rodas de conversa que misturam labuta e afeto. Cada porção que chega à cozinha carrega horas desse cuidado. Quando se prova um caldinho de sururu em Maceió, prova-se também esse gesto coletivo -ainda que ele permaneça invisível para quem só vê o prato pronto.


Entender isso muda a refeição. O sururu deixa de ser apenas um ingrediente saboroso e passa a ser um fio que conecta a mesa à lagoa, o turista à comunidade marisqueira, o prazer de comer ao trabalho de quem colhe.


Do caldinho ao escondidinho

Há muitas maneiras de comer sururu em Alagoas, e cada uma conta um capítulo diferente. O começo natural é o caldinho.


Servido quente, em copos pequenos ou cumbucas, é o sururu na sua forma mais despojada e mais honesta: o caldo concentrado do marisco, temperado com coentro, alho, pimenta e um toque de limão. É comida de beira de lagoa, de fim de tarde, de conversa demorada. O caldinho é onde o sabor da Mundaú aparece mais puro, salobro, marítimo, com aquele leve travo de fundo de água que nenhuma outra coisa reproduz.


Dali, o sururu se desdobra. Na casca, refogado com tomate, cebola e coentro, servido ainda fumegante para se comer com as mãos e a colher, num ritmo sem pressa. Ao molho, mais encorpado, acompanhando arroz branco e pirão, virando refeição de mesa farta. E há a moqueca, o sururu com feijão, as receitas que cada cozinha guarda como herança.


O ponto mais alto dessa progressão é o escondidinho de sururu. Sob uma camada dourada de purê de macaxeira, a mandioca que é quase um segundo símbolo de Alagoas, esconde-se o refogado do marisco, intenso e perfumado. É um prato que reúne os dois pilares da cozinha alagoana, a lagoa e a roça, em camadas que se revelam aos poucos. Comer um escondidinho é, de certa forma, comer a geografia do estado inteiro: a água salobra e a terra firme no mesmo garfo.


Identidade servida à mesa

Em Maceió, o sururu não é uma especialidade entre tantas. É identidade!


Está na economia que move famílias inteiras às margens da lagoa Mundaú. Está na linguagem afetuosa com que o alagoano fala dele - com orgulho, com saudade, com a certeza de que é uma coisa daqui, difícil de explicar para quem nunca provou. Está nas festas e celebrações que o tomam como protagonista, reunindo gente em torno de panelas grandes e mesas compartilhadas. E está, sobretudo, na memória: dificilmente se encontra alguém nascido na cidade que não associe o sururu a uma cena de infância, a um almoço de domingo, a uma tarde inteira passada à beira da lagoa.


Por isso, conhecer o sururu é uma das formas mais diretas de conhecer Maceió. A cidade tem praias de água transparente, piscinas naturais, um pôr do sol que pinta a lagoa de laranja. Mas é na cozinha que ela conta, sem cerimônia, quem é. O sabor do sururu guarda a paciência das marisqueiras, a generosidade do encontro de águas, o jeito alagoano de transformar o simples em memorável.


Quem se hospeda na cidade e prova esse caldo pela primeira vez raramente esquece. Não pela novidade do ingrediente, mas pelo que ele carrega: uma história inteira de lagoa, de comunidade e de tempo, servida em uma cumbuca fumegante. É a Maceió que não se vê do mirante - a que só se entende à mesa.

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